sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Capítulo 16: "Não foi não, não minta pra mim"

Puxando o David por uma mão, corremos até minha casa. Dirigi-me ao quarto e peguei no meu trolley, que tinha comprado recentemente muito por causa das competições em que andava envolvida. Acedendo às recomendações do Dê, enchi a mala com roupa bastante quente, tendo em conta que em Londres, o inverno consegue ser mais rigoroso que na minha terra. Como estava um pouco transpirada, fui tomar um banho, que serviu também para me preparar para a viagem que se adivinhava. Optei por uma roupa quente e confortável, regra que apliquei ao calçado, tendo escolhido umas sapatilhas. Fui até á cozinha, onde o David estava a fazer companhia á minha mãe. Ainda antes de atravessar o corredor de acesso àquela divisão, pude ouvir a minha a agradecer-lhe. Percebi que estava emocionada. Decidi acabar com aquilo e irrompi pela cozinha, fazendo de conta que não ouvi nada. Juntei-me a eles á mesa num lanche maravilhoso que a minha mãe havia preparado. Sabia que estava para vir choradeira, algo que queria evitar. Quando acabei de comer, ajudei a minha mãe a arrumar a cozinha. 

-ZEZINHA, VAIS AÍ COM O TEU AMIGO, VÊ SE TE ACALMAS, ESTÁS A PRECISAR. NÃO ANDAS BEM.

- EU SEI MÃE, E DESCULPA SE ESTÁS A SOFRER COM ISTO TAMBÉM.

- ÉS MINHA FILHA, E ESTOU CONTIGO EM TUDO.

- EII, MULHERES, NÃO TAVA QUERENDO ME METER NO MEIO DE CÊS DUAS, MAS MARIA, TEMOS QUE IR, O VOO É DAQUI A DUAS HORAS E CÊ SABE QUE…

- SIM, TENS RAZÃO, DÊ. VAMOS LÁ ENTÃO. MÃE, FICA BEM. EU LIGO-TE SEMPRE QUE PUDER.

- É, FAZ ISSO. CUIDA BEM DELA, DAVID.

-CUIDO POIS, NÃO SE PREOCUPE, TIA.

- OBRIGADA. FAÇAM BOA VIAGEM.

Abracei-a quando percebi que ela ia começar a lacrimejar. Depois de lhe beijar ternamente a testa, peguei na minha mala e deu a mão que estava livre ao David, ele que por sua vez levava o meu trolley.  Ia estar uma semana fora deste ambiente e isso ia fazer-me bem, eu sabia. Entrámos no carro e o David conduziu até ao aeroporto. Depois de realizarmos o check in, dirigimo-nos ao avião e posteriormente ocupamos o nosso lugar, numa classe mais reservada, logo, mais confortável. Aguardavam-nos quase 3 horas de voo, o que me ia dar para pensar, e bastante, isto é, se o David deixasse, né? Algo que já sabia ser impossível.

- GATINHA? 

- DIZ, DÊ?

- CÊ NÃO ESTÁ ARREPENDIDA, POIS NÃO?

- CLARO QUE NÃO. OLHA, DIZ-ME UM COISA.

- TUDO O QUE VOÇÊ QUISER.

- AI É? SENDO ASSIM… NÃO, AGORA A SÉRIO: DURANTE ESTES DIAS VOU PODER DANÇAR, CERTO?

-EU JÁ TAVA DESCONFIANDO DE UM PEDIDO DESSE GÉNERO, POR ISSO JÁ ARRANJEI UM ESPACINHO PRA VOCÊ.

- AIII, OBRIGADA DAVID!

- DE NADA, TUDO PARA VER VOÇÊ FELIZ.

- OLHA, E O RÚBEN, COMO TEM ANDADO? É QUE TENHO FALADO COM A CLÁUDIA E ELA ESTÁ TÃO FELIZ COM O MATIC, MAS NOTA ALGUM ATRITO EM RELAÇÃO AO RÚBEN.

- CÊ NÃO FALOU MAIS COM ELE?

- NÃO, COM TUDO, AS AULAS, A EQUIPA QUE TREINO E O MEU CAMPEONATO DE DANÇA. FOI POR ISSO QUE A MINHA RELAÇÃO COM O PEDRO NÃO RESULTOU.

- NÃO FOI NÃO, NÃO MINTA PRA MIM.

- DESCULPA?

- TÁ DESCULPADA.

.- NÃO GOZES.

-EU NÃO TÔ GOZANDO, TODA A GENTE QUE SABE DA SUA HISTÓRIA COM O ANDRÉ 
SABE BEM QUE A SUA ANTERIOR RELAÇÃO NÃO RESULTOU POR AINDA ESTAR APANHADINHA POR ELE.

- MENTIRA.

- VOCÊ ESTÁ SÓ MENTINDO PRA VOCÊ MESMA, NÓS JÁ PERCEBEMOS TODOS, ATÉ O PRÓPRIO ANDRÉ.

- AI, ESTÁ BEM, PORRA!!!

- ME DESCULPA, MAS EU NÃO CONSIGO TAR CALADO QUANDO SEI QUE CÊ SÓ TÁ SOFRENDO PORQUE QUER.

- COMO ASSIM, PORQUE QUERO? ACHAS MESMO QUE EU QUERO CHORAR TODAS AS NOITES QUANDO ME DEITO?

- LÁ ESTÁ, VOCÊ SÓ CHORA PORQUE QUER. OU DAVA O BRAÇO A TORCER. DESISTE DE SER FORTE, SE ENTREGA A ELE.

- NÃO.

- PORQUE NÃO?

- E PORQUE SIM? PARA ELE TORNAR A FAZER A MESMA COISA?

- MAS NÃO VAI FAZER!

- COMO SABES, DAVID?

- NÃO SEI, E VOCÊ TAMBÉM NÃO. POR ISSO É QUE TEM DE ARRISCAR. COMO OS PORTUGUESES FALAM: QUEM NÃO ARRISCA NÃO PETISCA.

- OLHA, ACABOU AQUI, ESTÁ BEM? ACABOU!!!

- TÁ BOM, ACABOU!

O David estava cheio de razão e eu tinha a perfeita noção disso. Mentalmente, castiguei-me por ter sido tão dura com ele, não merecia, só por ter razão. Percebi que ficou perturbado. “PORRA MARIA, ÉS UMA MERDA!”, pensei eu. O piloto alertou para a proximidade á terra e eu recostei-me ao banco, não conseguia encarar o David. Quando aterramos, levantei-me, sem ouvir qualquer palavra por parte dele, algo que me fez ficar com os olhos rasos de água. Saímos do avião e o meu choro intensificou-se. Aí, senti-o puxar-me contra ele para me abraçar fortemente, enquanto eu me desculpava pela minha reacção.

- CALMA PRINCESINHA, SE PREOCUPA NÃO. AGORA VAMOS, DEVEM ESTAR NOS ESPERANDO.

- QUEM?

De repente, ouvi um “MARIAAAAAAAAAAAAAAA”. Onde é que eu já tinha ouvido aquilo? Ri-me, pois lembrei-me imediatamente do almoço em casa do Rúben onde conheci a Sara. Sim, é isso mesmo. Era a Sara, a pequena, querida e magnifica Sara. Já tinha imensas saudades dela. De facto, desde que tinha regressado a casa depois das férias, nunca mais a vi.

- EII SARITA! COMO ESTÁS PRINCESA?

- BEM, E TU? JÁ OUVI DIZER QUE AS COISAS TE ESTÃO A CORRER BEM NA DANÇA. PARA TUDO FICAR ÁS MIL MARAVILHAS FALTA ENTENDERES-TE COM O ANDRÉ.

Custou-me ouvir aquilo, que ela partilha da mesma opinião do David, aliás, de todos os que me rodeiam.

-ATÃO MORZINHO, CÊ TINHA QUE FALAR DISSO?  
                                                                                     
- DESCULPA ZEZINHA, SOU UMA PARVA.

- NÃO, NÃO ÉS. SÓ TENS RAZÃO.

- PERA AÍ, CÊ ACABOU DE DIZER QUE A SARINHA TEM RAZÃO?

Não respondi, continuei a caminhar até á zona de recolha de bagagens. Senti um braço a envolver a minha cintura, devia pertencer ao David. Entramos todos para o carro que nos esperava. Estava morta, queria tanto descançar. Mas não foi para casa que o Dê me levou… 

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