sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Capítulo 16: "Não foi não, não minta pra mim"

Puxando o David por uma mão, corremos até minha casa. Dirigi-me ao quarto e peguei no meu trolley, que tinha comprado recentemente muito por causa das competições em que andava envolvida. Acedendo às recomendações do Dê, enchi a mala com roupa bastante quente, tendo em conta que em Londres, o inverno consegue ser mais rigoroso que na minha terra. Como estava um pouco transpirada, fui tomar um banho, que serviu também para me preparar para a viagem que se adivinhava. Optei por uma roupa quente e confortável, regra que apliquei ao calçado, tendo escolhido umas sapatilhas. Fui até á cozinha, onde o David estava a fazer companhia á minha mãe. Ainda antes de atravessar o corredor de acesso àquela divisão, pude ouvir a minha a agradecer-lhe. Percebi que estava emocionada. Decidi acabar com aquilo e irrompi pela cozinha, fazendo de conta que não ouvi nada. Juntei-me a eles á mesa num lanche maravilhoso que a minha mãe havia preparado. Sabia que estava para vir choradeira, algo que queria evitar. Quando acabei de comer, ajudei a minha mãe a arrumar a cozinha. 

-ZEZINHA, VAIS AÍ COM O TEU AMIGO, VÊ SE TE ACALMAS, ESTÁS A PRECISAR. NÃO ANDAS BEM.

- EU SEI MÃE, E DESCULPA SE ESTÁS A SOFRER COM ISTO TAMBÉM.

- ÉS MINHA FILHA, E ESTOU CONTIGO EM TUDO.

- EII, MULHERES, NÃO TAVA QUERENDO ME METER NO MEIO DE CÊS DUAS, MAS MARIA, TEMOS QUE IR, O VOO É DAQUI A DUAS HORAS E CÊ SABE QUE…

- SIM, TENS RAZÃO, DÊ. VAMOS LÁ ENTÃO. MÃE, FICA BEM. EU LIGO-TE SEMPRE QUE PUDER.

- É, FAZ ISSO. CUIDA BEM DELA, DAVID.

-CUIDO POIS, NÃO SE PREOCUPE, TIA.

- OBRIGADA. FAÇAM BOA VIAGEM.

Abracei-a quando percebi que ela ia começar a lacrimejar. Depois de lhe beijar ternamente a testa, peguei na minha mala e deu a mão que estava livre ao David, ele que por sua vez levava o meu trolley.  Ia estar uma semana fora deste ambiente e isso ia fazer-me bem, eu sabia. Entrámos no carro e o David conduziu até ao aeroporto. Depois de realizarmos o check in, dirigimo-nos ao avião e posteriormente ocupamos o nosso lugar, numa classe mais reservada, logo, mais confortável. Aguardavam-nos quase 3 horas de voo, o que me ia dar para pensar, e bastante, isto é, se o David deixasse, né? Algo que já sabia ser impossível.

- GATINHA? 

- DIZ, DÊ?

- CÊ NÃO ESTÁ ARREPENDIDA, POIS NÃO?

- CLARO QUE NÃO. OLHA, DIZ-ME UM COISA.

- TUDO O QUE VOÇÊ QUISER.

- AI É? SENDO ASSIM… NÃO, AGORA A SÉRIO: DURANTE ESTES DIAS VOU PODER DANÇAR, CERTO?

-EU JÁ TAVA DESCONFIANDO DE UM PEDIDO DESSE GÉNERO, POR ISSO JÁ ARRANJEI UM ESPACINHO PRA VOCÊ.

- AIII, OBRIGADA DAVID!

- DE NADA, TUDO PARA VER VOÇÊ FELIZ.

- OLHA, E O RÚBEN, COMO TEM ANDADO? É QUE TENHO FALADO COM A CLÁUDIA E ELA ESTÁ TÃO FELIZ COM O MATIC, MAS NOTA ALGUM ATRITO EM RELAÇÃO AO RÚBEN.

- CÊ NÃO FALOU MAIS COM ELE?

- NÃO, COM TUDO, AS AULAS, A EQUIPA QUE TREINO E O MEU CAMPEONATO DE DANÇA. FOI POR ISSO QUE A MINHA RELAÇÃO COM O PEDRO NÃO RESULTOU.

- NÃO FOI NÃO, NÃO MINTA PRA MIM.

- DESCULPA?

- TÁ DESCULPADA.

.- NÃO GOZES.

-EU NÃO TÔ GOZANDO, TODA A GENTE QUE SABE DA SUA HISTÓRIA COM O ANDRÉ 
SABE BEM QUE A SUA ANTERIOR RELAÇÃO NÃO RESULTOU POR AINDA ESTAR APANHADINHA POR ELE.

- MENTIRA.

- VOCÊ ESTÁ SÓ MENTINDO PRA VOCÊ MESMA, NÓS JÁ PERCEBEMOS TODOS, ATÉ O PRÓPRIO ANDRÉ.

- AI, ESTÁ BEM, PORRA!!!

- ME DESCULPA, MAS EU NÃO CONSIGO TAR CALADO QUANDO SEI QUE CÊ SÓ TÁ SOFRENDO PORQUE QUER.

- COMO ASSIM, PORQUE QUERO? ACHAS MESMO QUE EU QUERO CHORAR TODAS AS NOITES QUANDO ME DEITO?

- LÁ ESTÁ, VOCÊ SÓ CHORA PORQUE QUER. OU DAVA O BRAÇO A TORCER. DESISTE DE SER FORTE, SE ENTREGA A ELE.

- NÃO.

- PORQUE NÃO?

- E PORQUE SIM? PARA ELE TORNAR A FAZER A MESMA COISA?

- MAS NÃO VAI FAZER!

- COMO SABES, DAVID?

- NÃO SEI, E VOCÊ TAMBÉM NÃO. POR ISSO É QUE TEM DE ARRISCAR. COMO OS PORTUGUESES FALAM: QUEM NÃO ARRISCA NÃO PETISCA.

- OLHA, ACABOU AQUI, ESTÁ BEM? ACABOU!!!

- TÁ BOM, ACABOU!

O David estava cheio de razão e eu tinha a perfeita noção disso. Mentalmente, castiguei-me por ter sido tão dura com ele, não merecia, só por ter razão. Percebi que ficou perturbado. “PORRA MARIA, ÉS UMA MERDA!”, pensei eu. O piloto alertou para a proximidade á terra e eu recostei-me ao banco, não conseguia encarar o David. Quando aterramos, levantei-me, sem ouvir qualquer palavra por parte dele, algo que me fez ficar com os olhos rasos de água. Saímos do avião e o meu choro intensificou-se. Aí, senti-o puxar-me contra ele para me abraçar fortemente, enquanto eu me desculpava pela minha reacção.

- CALMA PRINCESINHA, SE PREOCUPA NÃO. AGORA VAMOS, DEVEM ESTAR NOS ESPERANDO.

- QUEM?

De repente, ouvi um “MARIAAAAAAAAAAAAAAA”. Onde é que eu já tinha ouvido aquilo? Ri-me, pois lembrei-me imediatamente do almoço em casa do Rúben onde conheci a Sara. Sim, é isso mesmo. Era a Sara, a pequena, querida e magnifica Sara. Já tinha imensas saudades dela. De facto, desde que tinha regressado a casa depois das férias, nunca mais a vi.

- EII SARITA! COMO ESTÁS PRINCESA?

- BEM, E TU? JÁ OUVI DIZER QUE AS COISAS TE ESTÃO A CORRER BEM NA DANÇA. PARA TUDO FICAR ÁS MIL MARAVILHAS FALTA ENTENDERES-TE COM O ANDRÉ.

Custou-me ouvir aquilo, que ela partilha da mesma opinião do David, aliás, de todos os que me rodeiam.

-ATÃO MORZINHO, CÊ TINHA QUE FALAR DISSO?  
                                                                                     
- DESCULPA ZEZINHA, SOU UMA PARVA.

- NÃO, NÃO ÉS. SÓ TENS RAZÃO.

- PERA AÍ, CÊ ACABOU DE DIZER QUE A SARINHA TEM RAZÃO?

Não respondi, continuei a caminhar até á zona de recolha de bagagens. Senti um braço a envolver a minha cintura, devia pertencer ao David. Entramos todos para o carro que nos esperava. Estava morta, queria tanto descançar. Mas não foi para casa que o Dê me levou… 

sábado, 16 de novembro de 2013

Capítulo 15: "ENTÃO, TÁ OU NÃO VINDO COMIGO?"

Deixei tocar, não estava mesmo para falar com ele. Tudo bem que nos tínhamos beijado e sim, tinha significado algo, pelo menos para mim. Mas depois do que se passou comigo e do que ele me fez. Ainda não lhe tinha dado oportunidade para se explicar, mas fiquei tão furiosa com ele e comigo mesma, por não ter sabido aproveitar a oportunidade. Apesar de tudo, ele cada vez significava mais para mim. Convivemos poucos dias, eu sei, mas também sei que nunca gostei de um alguém como gosto dele. Tenho até a certeza que ele faz parte de mim do jeito que nenhum rapaz alguma vez fez. Tenho também a certeza que não me irei esquecer dele, por isso estava decidida a tentar ocultar o seu significado, a pô-lo atrás das costas e prosseguir, ser feliz. Mais uma vez o telemóvel toca. Pu-lo em silêncio, queria regressar á nostalgia. Agarrei-me á almofada, relembrando tudo o que tinha acontecido nos últimos dois anos: os tratamentos falhados, a relação que foi por água abaixo e o simples facto de não me puder distrair como de costume por ter sido proibida de dançar para conseguir melhorar. Depois de cair ao chão agarrei-me á Cláudia e consegui recuperar minimamente, mas o suficiente para iniciar uma carreira como coreógrafa. Já que não pude aproveitar a minha oportunidade de ser uma dançarina bem-sucedida, queria assegurar-me de que estes miúdos não a desperdiçavam também. Tinha a certeza de que isto me iria ajudar a esquecer-me do resto. Acabei por adormecer com um sorriso na cara. Acordei de forma agradável, com o habitual BOM DIA da minha mãe e as suas torradas acompanhadas pelo café á minha espera na cozinha. Lembrei-me que era o dia em que ia conhecer a minha equipa, pelo que estava nervosa e por isso pouco ou nada comi. Vesti umas simples leggings pretas e optei por uma camisola da cor que futuramente nos iria representar, um verde quase fluorescente. Optei pelas minhas Vans pretas que o meu tão querido David me tinha oferecido. Peguei num casaco, na minha mala e saí de casa, sem me esquecer de todos os papéis que me tinham passado para as mãos semanas antes para que eu pudesse organizar a equipa. Apanhei o autocarro até á associação e meti as mãos ao trabalho, com muito gosto. Fui recebida de bom grado por aquela que seria a minha equipa. Já conhecia alguns membros por isso seria mais fácil, achava eu. Cheguei a casa de rastos, pelo que não jantei, caí logo que nem uma pedra na cama. Em breve começavam as aulas, não queria nada, ia encontrar-me com o paspalho do meu ex-namorado. A muito custo, havia chegado o dia. Optei por uns Jeans e uma camisola simples, era só para me apresentar numas quantas disciplinas, whatever. Peguei na mala e no casaco e pondo os meus fones nos ouvidos lá me dirigi á paragem onde apanharia o veículo que me levaria á escola. Digamos apenas que a rotina continuou, incluindo as bocas que o mesmo paspalho de merda mandou. Ainda o ia fazer arrepender-se de tudo.  Dois meses assim se passaram, as notas estavam bem, a minha equipa já se encontrava nas regionais, após ter ganho as distritais com uma mão atrás das costas, e por isso era já considerada umas das mais jovens melhores treinadoras.Andava a sair com um rapaz, o mesmo rapaz que me havia defendido aquando da zaragata com o meu ex, podia até dizer-se que estava numa relação. Estava minimamente feliz, visto que o rapaz/homem que amava era e continuaria a ser por muito tempo o André. Por inúmeras conversas com o meu Dê soube que ele nunca mais se tinha comprometido com alguém, tal como nunca tinha desistido de mim. Sempre que alguém me dizia isso, parte se mim deixava de acreditar na relação actual e passava a acreditar numa possível reconciliação com o André. A minha melhor andava preocupada com isso, é por muitas vezes já mo tinha dito, incentivando para que fosse atrás dele. Não, eu não era assim fácil, ele que lutasse por mim. Deixei-me continuar como estava, tinha de me concentrar na carreira. Além da equipa que treinava, estava a disputar o campeonato nacional de Danças Clássico-Latinas e estava numa boa posição da tabela classificativa. Com tudo isto, as aulas e a continuação dos meus tratamentos, pouco tempo sobrava para mim, incluindo para namorar, algo que o Pedro já desgostava bastante. As suas constantes queixas e cenas de ciúmes estavam a dar comigo em doida, por isso tinha tomado uma decisão: ia acabar a relação. Digamos que toda a gente que me era mais próxima sabia que a verdadeira razão do fim desta relação era o facto de estar irremediavelmente apaixonada pelo André. Quando comuniquei a minha decisão ao Pedro senti automaticamente um alívio em mim, era como se estivesse presa com ele. Apesar de tudo, sentia falta dele, porque sabia que era amada e ao sentir-me amada sentia-me bem. Conclusão: fui abaixo, quase desperdiçando as oportunidades de carreira que tinha. Estava a bater no fundo, e estava a preocupar todos de novo, algo que não queria. Decidida a concentrar-me só em mim, pausei todos os meus ensaios que tinha durante uma semana e resolvi dançar, não para agradar a outro alguém, somente a mim mesma. Todas as vezes que tentava uma coreografia concisa falhava e eu sabia porquê. Sabia porque a todos os minutos que vivia sentia o meu coração palpitar, talvez por não ter a pessoa que amava a meu lado. Encostada ao espelho, embrulhei-me sobre mim mesma num choro descontrolado. Deixei-me chorar, já não conseguia impedir as lágrimas de correr, elas que agora tinham mais controlo sobre mim do que eu mesma. Era a primeira vez em semanas que chorava, nem sequer quando a minha relação com o Pedro chegou ao fim eu senti a necessidade de chorar. Estava a partir o coração á minha mãe, isso eu sabia, ela estava a sentir-se impotente perante o meu estado de espirito, mas não sabendo o que dizer, não fazia mais nada senão abraçar-me e chorar comigo. Mas o meu orgulho falava mais alto que tudo o resto.


-David-

Depois de perguntar pra mãe da Maria onde estava ela, fui procurar e encontrei ela chorando. No meu interior sabia o porquê, só não sabia o que fazer, apenas o jeito dela tava quebrando meu coração. Corri pra ela e a abracei, não me importei com nada não, só que ela parasse de chorar daquele modo. Significando o que ela significa pra mim, fiquei preocupada com o seu bem-estar quando Cláudia me falou da preocupação que a mãe da Maria tinha falado pra ela. Ela me falou que a Maria ia parar seus treinos por uns tempos, por isso surgiu em minha cabeça a ideia de levar ela comigo para londres, para que pudesse se esquecer um pouco da sua realidade. Estava decidido a fazer  a minha proposta pra ela quando senti o seu choro desesperado abafar em meu peito.

E AÍ MEU ANJO, MELHORZINHA?

AI, OBRIGADA, OBRIGADA E OBRIGADA.

SHSHSHSHSH, NÃO AGRADEÇA NÃO, PRINCESINHA. TENHO UMA COISA PRA FALAR PRA VOCÊ.

CHUTA

CÊ GOSTARIA DE PASSAR COMIGO EM LONDRES POR UNS DIAS?

GOSTAR ATÉ GOSTAVA, MAS TENHO MUITO PARA FAZER.

SE CALA, SEI BEM QUE CÊ TIROU ESTA SEMANA TODINHA PRA VOCÊ.

TU ÉS RATO, FOGO!

ENTÃO, TÁ OU NÃO VINDO COMIGO?

JÁ LÁ ESTOU. DEIXA-ME IR SÓ FAZER AS MALAS.

VAMOS LÁ.

domingo, 29 de setembro de 2013

Capítulo 14: "O que será que ele queria?"

Chamei a atenção do David para aquilo, ou muito me enganava ou ainda ia dar problemas.

“DAVIIIII, TENHO MEDO QUE DÊ PROBLEMAS.”

“NÃO SE PREOCUPE, TÔ DE OLHO NELE.”

Estas poucas palavras do David tranquilizaram-me, sabia que ele era o único capaz de tranquilizar o Rúben sempre que necessário. Continuamos a aproveitar a batida, mas quando olho para o Rúben estava pronto a “atacar”. O porquê? O Matic tinha acabado de espetar um beijo á Cláudia. Ouviu-se um baque e viu-se um corpo a cair, era o Rúben. Não sei porquê nem como foi capaz de o fazer, mas o David tinha acabado de pregar um soco ao Rúben com a força suficiente para o pôr a dormir. A Sara correu para ele, estava mesmo apagado. A noite tinha terminado por ali. Tinha que falar com o David, mas de certeza que ele tinha razão para ter feito aquilo. Com o auxilio do Matic, levaram o Rúben para o carro. Foram levar-me a casa primeiro, mas não deixei o David arrancar sem antes lhe dizer que tínhamos de falar. Estava sozinha, sentei-me no sofá á espera da minha melhor, esperava-a uma conversa. Felizmente para ela, o cansaço tomou conta de mim e aterrei. Acordei com uma valente dor de cabeça. Cheirava-me a café, logo, não estava sozinha. Tomei uma grande chávena a ver se passava, nem por isso. Não estava mesmo com disposição para falar com a Cláudia, mas tinha que ser e o que tem que ser tem muita força. Tinha acabado de lhe pedir que se sentasse a meu lado quando o David toca á campainha.

“E AÍ PRINCESA, CÊ JÁ ESTÁ PRONTA?”

“AI, É HOJE QUE ME VOU EMBORA, NÉ? COM TUDO O QUE SE PASSOU, ESQUECI-ME MESMO.”

“E AÍ, NÃO TEM QUE SE DESCULPAR. VAMO?”

“VÁ, VAMOS. VOU SÓ VESTIR-ME E FAZER A MALA.”

Fui ao quarto e peguei nos mesmos jeans do dia anterior que conjuguei com uma camisola. Calcei uns ténis e tratei de pôr a restante roupa no saco. Dirigi-me à sala, tinha de me despedir da Cláudia. Tinha quase a certeza que tão cedo não a veria. Espontaneamente, abracei-a. Já se tinha tornado num hábito, hábito esse que me era bastante importante para mim. Tudo aquilo que ela era para mim não tinha descrição possível. Como de costume, lágrimas começaram a correr e entre palavras afectuosas ficou a promessa de um até já. Estávamos tão sentidas que o próprio David deixou cair um par de lágrimas. Rimo-nos quando se tentou justificar com “UM CISCO NO OLHO, NADA MAIS”. Este David é demais. Abraçou a Cláudia e puxou-me por um braço, mas de forma a manter contacto entre os nossos corpos, até ao carro, e aí lembrei-me de algo:

“MAS NEM PENSES QUE TE ESCAPAS À CONVERSA, CLÁUDIA JAQUELINE. LOGO LIGO-TE, AMO-TE.”

“OH, POR MOMENTOS PENSEI QUE SIM. TAMBÉM TE AMO.”

Tão croma, esta rapariga. Mal entramos no carro, o David começou a falar, variando entre os mais variados temas. Reparei que andava a tentar evitar comentar sobre a situação da noite anterior, por isso decidi começar eu:

“DAVID LUIZ MOREIRA MARINHO, É BOM QUE COMECES JÁ A FALAR.”

“UÉ, SOBRE O QUÊ?”

“NÃO TE FAÇAS DE TONTINHO PORQUE SE HÁ COISA QUE NÃO ÉS É TONTINHO!”

“PRONTO, PRONTO. EU VÔ EXPLICAR PRA VOCÊ”

“ESTOU Á ESPERA.”

“BASICAMENTE, FOI PARA PROTEGER SUA AMIGA. RÚBEN IA MATANDO MATIC SE EU NÃO TIVESSE FEITO AQUILO, ACREDITA EM MIM.”

“EU ACREDITO, SABES QUE SIM.”

“BRIGADA.”

“CALA-TE, NÃO PRECISAS DE ME AGRADECER.”


Gentilmente beijou-me a testa e depois pusemo-nos ao caminho. Esperava-nos uma comprida viagem. Percebi que tinha adormecido quando o David começou a tocar-me no braço para me acordar. Era hora de almoço, acabamos por optar por uma refeição ligeira num centro comercial, sempre com bastante discrição pelo David. Depois retomámos o caminho. Era a minha última semana de férias, terminava com os melhores. Em breve começaria a trabalhar, fazendo o que mais amava: Dançar. Mas ainda nem tinha chegado a casa e já as lágrimas corriam, principalmente pelas saudades que ia ter da pessoa que me ladeava. Adorava o David como um irmão e só lhe desejava tudo do melhor. Quando chegámos a casa, recusei-me a sair do carro, queria prolongar aquele momento o mais possível. O David abriu-me a porta e puxou-me contra ele, abafando as minhas lágrimas. Estava sufocada num choro descontrolado. Senti as lágrimas do David na minha testa, também ele estava abalado.

“E AÍ, PRINCESINHA, EU SEI QUE CUSTA MAS TEM QUI SER. CÊ SABE QUE EU ADORO VOCÊ. ESTAMOS SÓ Á DISTANCIA DE UM CELULAR.”

“É, TAMBÉM TE ADORO.”

“QUALQUER COISA QUE CÊ PRECISAR, ME FALA.”

“OK. FAÇO MINHAS AS TUAS PALAVRAS.”

Muito ternamente, senti os seus lábios na minha face, culminando num beijo carinhoso. Depois de me despedir dele, entrei em casa e sem falar nada a ninguém dirigi-me ao quarto. Sabia que precisava duma noite de nostalgia para ficar bem, desejava por isso que ninguém me incomodasse. Subitamente, o meu telemóvel toca. Depois de ver o nome no ecrã recusei-me a atender, apesar da curiosidade. O que será que ele queria?

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Capítulo 13: "Tinha que fazer algo em relação a isso, mas o quê?"

A ligeira boa disposição que se fazia sentir naquela divisão contrastava profundamente com o meu eu interior. Faltava-me algo, não sabia era o quê. Saber até sabia, mas não o queria dizer, não queria sequer pensar nisso. O vazio dentro de mim já me era suficiente. Isto só provava a importância que ele tinha para mim, era dono do meu músculo mais importante, por muito que isso não me agrade de todo. Involuntariamente, as lágrimas começaram a escorrer-me pela face abaixo.  Ainda antes de ter tempo de as limpar, já sentia uns braços á minha volta. Sentia-me segura e ‘amada’ com aquele grupo, mas nada se compara aos sentimentos que me invadiam sempre que estava com ele. Ao contrário do que pensava, apesar da distância, cada vez o amava mais. Senti o David puxar-me com ele para a sala.

“PARA, CÊ ASSIM NÃO VAI A LADO NENHUM!”

“MAS PARO COM O QUÊ, DAVID?”

“PARA DE CHORAR SEMPRE QUE SE LEMBRA DELE, VIU? EU SEI QUE DOI, MAS ISSO VAI PASSAR.”

“COMO VAI PASSAR SE A CADA SEGUNDO QUE PASSA SINTO MAIS SAUDADES DELE, SE A CADA DIA QUE NASCE UMA VONTADE LOUCA DE CORRER PARA ELE DEPOIS DE TUDO CRESCE EM MIM E ME MATA POR DENTRO, POR TER MEDO DE PASSAR PELO MESMO OUTRA VEZ? SE CADA VEZ QUE O VEJO O MEU CORAÇÃO MIRRA MAIS UM BOCADO AO LEMBRAR-ME QUE HOUVE MOMENTOS EM QUE FUI A RAZÃO DO SORRISO DELE! PORRA, VÊ SE ME ENTENDES, POR UNS BREVES MINUTOS QUE SEJAM, DAVID. EU AMO-O E SEI QUE TÃO CEDO NÃO VAI DEIXAR DE SER ASSIM, SENÃO NUNCA!”

“AI, POSHA QUE ME DEIXOU SEM SABER O QUE FALAR PRA VOCÊ, VENHA CÁ!”


As lágrimas retornaram á minha face, ao mesmo tempo que ele me abraçava. Com um dedo no meu queixo, fez-me olhá-lo. Quando levantei a cabeça, senti uma lágrima sua humedecer-me a fronte. Os seus olhos estavam vermelhos, estava nitidamente preocupado comigo, tanto que essa sua preocupação já transbordava. Não o queria mesmo afectar, tarde demais. Eles juntaram-se a nós e abraçaram-nos também, algo que fez o David sorrir, sorriso esse que se reflectiu em mim. Sentia-me bem ali, tinham-se tornado a minha segunda família. Para aligeirar o ambiente, combinámos ir todos jantar fora. Como já adivinhava que fosse acontecer uma como estas, pus uma muda mais elegante, embora simples, na mala. Depois deles saírem de casa, puxei a Cláudia até ao quarto e escolhi-lhe algo também simples mas elegante. Para mim optei por uns jeans e uma camisola, vermelha, um conjunto que me favorecia. Calcei os meus saltos, ultimamente andava a optar muito pelas sapatilhas. Juntei-me á Cláudia na sala, ela que já estava preparada. Tocaram á campainha, era o David. Lá fomos até ao local, estava decidida a aproveitar, no dia seguinte regressava á terra e brevemente as aulas começavam. Depois de um jantar agradável, entre risadas, fomos até um bar. Mal entrei, arrependi-me, mas o David puxou por mim para a pista. Não sei como, consegui descontrair, apesar da presença dele. Apercebi-me de um clima entre a Cláudia e o Matic, algo que não agradou ao Rúben. Ou muito me enganava, ou o Rúben estava enciúmado, o que revelava outros sentimentos sem ser uma simples atracção. Tinha que fazer algo em relação a isso, mas o quê?

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Capítulo 12: “EU VOLTEI A PASSAR A NOITE COM O RÚBEN.”

Só eu sei o quanto aquelas palavras me queimaram a garganta. O David envolveu-me num abraço e deixei-me ficar nos seus braços. Depois de umas palavras carinhosas, sentamo-nos nos lugares que nos estavam destinados. Adivinhava-se um jogo trabalhoso, o adversário estava a dar bastante luta, mas o Benfica acabou por vencer a partida. Depois demos continuação ao serão e fomos até casa do Rúben, tal como todo o plantel e suas respectivas acompanhantes. Entre bebidas (não alcoólicas) e batidas de vários tipos, apesar de sabendo que ele partilhava do mesmo espaço que eu, pude esquecer-me que ele existia. Estava eu a desfrutar da companhia do David e da Cláudia entre músicas brasileiras quando senti alguém agarrar-me por um braço e levar-me dali. Reconheci-o quando senti aquele toque, aquele corpo que se colou ao meu e a voz que se fez soar poucos segundos depois:

“NÃO AGUENTO MAIS TEMPO SEM TI, SEM VER ESSE TEU SORRISO, SEM TE TER COMIGO. SABES QUE EU TE AMO. DESCULPA POR TUDO O QUE TE FIZ.”

Não sabia o que dizer, muito devido ao facto de estar como estava. Sentir aquele corpo tonificado contra o meu, aquele perfume agradável que ele exalava, eu sabia que estava a perder a noção, o controlo da situação. Virou-me de frente para ele e puxou-me contra si. Com os seus braços a envolver a minha cintura num abraço inquebrável, juntou os seus lábios aos meus muito suavemente, e deu-me um beijo intenso, apaixonado. Fiz o impensável ao corresponder. Quando regressei ao meu perfeito juízo, afastei-o de mim e com as lágrimas a turvarem-me a visão corri até ao jardim da casa. Os sentimentos tomaram conta do meu peito e os segundos anteriores assomaram á memória, e com isto, as lágrimas intensificaram-se. Senti alguém envolver-me num abraço forte, percebi que era o David muito pelos caracóis a fazerem cócegas no meu pescoço. Não se pronunciou, o que eu agradeci bastante.

“PRINCESA, CÊ JÁ ESTÁ MAIS CALMA?”

“SIM, DAVID.”

“VAMO VOLTAR PRA DENTRO?”

“VÁ, VAMOS LÁ.”

Ele deu-me a mão e puxou-me para dentro. Olhei em redor, mas nem sinal do André. Mais sossegada, fui buscar uma bebida e sentei-me no sofá. O David ainda insistiu para que eu fosse dançar, mas sinceramente, a vontade era pouca. Ele compreendeu-me, mas eu sabia que o interrogatório estava para chegar. Estava cansada, por isso o David levou-me a casa da Cláudia, esta que iria chegar mais tarde porque ficou a fazer companhia ao Matic. Depois de vestir o pijama, deitei-me naquela que tinha sido a minha cama durante a minha estadia ali. Lembrei-me do que se tinha passado horas antes, e entre lágrimas, o cansaço apoderou-se de mim, eu que só tinha dormido cerca de duas horas. Acordei no dia seguinte e vi que estava em casa sozinha. Depois de vestir uns calções de renda e uma camisola fresca, fui tomar o pequeno-almoço. Entretanto, a Cláudia chegou, não vinha com muito boa cara.

“ENTÃO PRINCESA, ESTÁ TUDO BEM?”

“SIM, ESTOU SÓ CANSADA.”

“EI, ESSES TEUS OLHOS HÚMIDOS NÃO ME ENGANAM. SENTA AQUI Á BEIRA DA ZEZA E COMEÇA A FALAR, ESTOU CÁ PARA TE OUVIR, SABES DISSO.”

“TORNOU A ACONTECER, SOU UMA PARVA.”

“ELÁ, MAS O QUÊ QUE SE PASSA?”

“EU VOLTEI A PASSAR A NOITE COM O RÚBEN.”

“TU O QUÊ? MAS ÉS DOIDA? VAIS ACABAR MAGOADA, E VAIS ACABAR POR MAGOAR OUTRAS PESSOAS, LINDA. E QUERES ISSO? OLHA O MATIC, ESTAVAS TÃO BEM ANTES DE EU VOLTAR PARA A MINHA TERRA, E MESMO ONTEM, ESTAVAS TÃO FELIZ QUANDO ESTAVAS COM ELE E HOJE DIZES-ME QUE DORMISTE OUTRA VEZ COM O RÚBEN? DIZ-ME UMA COISA: O QUÊ QUE ELE SIGNIFICA PARA TI?

“NADA, NADA MESMO.”

“NADA MESMO NÃO, JÁ NÃO É A PRIMEIRA VEZ QUE ISTO ACONTECE, NÉ. ESQUECE-O, DEIXA-O IR. ISTO NÃO VOS VAI LEVAR A LADO NENHUM, ACREDITA EM MIM. DESCULPA SE TE MAGOO AO DIZER ISTO, MAS É PELO TEU BEM, ABRE OS OLHOS!”

“OBRIGADA.”

“MAS NÃO TENS DE ME AGRADECER, SABES DISSO.”


Sorri-lhe e alberguei-a nos meus braços, se havia coisa que ela precisava naquele momento era de um abraço, e eu sabia disso. Empurrei-a até á casa de banho e insisti para que ela tomasse um banho relaxante. Ela lá acedeu ao meu pedido, enquanto eu fui fazer pipocas. Escolhi um filme, estávamos as duas a precisar de nos distrairmos. Resultou, devo admitir. A Cláudia acabou por adormecer no sofá, por isso peguei no telemóvel, fui buscar os meus auscultadores á mala e deitei-me na cama. Entre músicas, lembrei-me de tudo que se tinha passado no mês anterior, e como de costume, as lágrimas vieram-me aos olhos, sem pedirem autorização, mas deixei-as correr, não queria saber. Já não tinha controlo sobre elas e não, por isso não me importei. O que ele me tinha feito na noite anterior só me provava que ele tinha controlo sobre mim, apesar do que ele me tinha feito. Devo ter adormecido, porque só sei que acordei com o cheiro a bolo de chocolate. Levantei-me e fui até á cozinha, onde me deparei com a Cláudia acompanhada pelo meu melhor amigo, pelo Matic, Rúben, pela Sara e pelo Rodrigo. Puxaram-me para a beira deles e comemos entre piadas regulares entre o David, o Rúben e o Rodrigo, mas sempre que olhava para o Dê, havia algo naquele olhar que me dizia que em breve o teria de ouvir. Ele é muito bom amigo, e por isso preocupa-se bastante, mais do que devia até às vezes, mas se calhar era isso que me cativava.


sábado, 10 de agosto de 2013

Capítulo 11: "TU AQUI?"

 Não queria mesmo qualquer tipo de conversas com ele, não depois do que ele me fez. Acabar com ele foi de longe a melhor decisão que tomei em toda a vida, até agora, apesar de na altura ter custado bastante, e a Cláudia que o diga, pelas vezes que me ouviu. Desliguei-me dos pensamentos quando o senti agarrar-me o braço. Quando me ia a virar para ele, só tive tempo de me desviar para não levar o soco que o Pedro, o rapaz que nos acompanhava, desferiu no meu ex-namorado. Ele caiu no chão, agarrado ao nariz, que parecia estar a sangrar. Não tinha pena nenhuma, aquele murro que ele tinha acabado de levar soube-me como uma pequena vingança, pelos nomes que ele me chamou de todas as vezes que nos chateávamos, por todas as ameaças, por todas as vezes que ele me usou. Mas isto não era nada, quando comparado á vontade que eu tinha de lhe dar umas valentes chapadas por cada lágrima que derramei. Segurei o Pedro, visto que ele estava exaltado, mas foi a vez da minha prima intervir, quando Paulo tentou uma segunda vez.

“EPÁ, Ó PAULO, DESAPARECE.”

“PODES BATER-ME AS VEZES QUE QUISERES, NÃO VOU DESISTIR NEM POR NADA.”

A minha prima estava calada, tinha ficado sem argumentos, por isso decidi intervir.

“SABES QUE MAIS? FAZ O QUE QUISERES. SÓ TE DIGO UMA COISA: NÃO TENS HIPÓTESE, MAS MESMO ASSIM, NÃO VOU DEIXAR DE TE ATORMENTAR A VIDA.”
“VOU FICAR Á ESPERA.”

“OK, QUE FIXE PARA TI. AGORA DESAMPARA-ME A LOJA.”

Ele lá acedeu ao meu pedido e saiu dali. Resolvida a esquecer aquele momento, e desejando que não acontecesse novamente, visto que estava em propriedade da família dele, puxei os meus acompanhantes para o centro da pista e comecei a aproveitar a noite. Entre batidas brasileiras e bebidas, esqueci-me de tudo o resto. Foi uma noite bem passada, mas só sei que mal me deitei, aterrei que nem uma pedra. “OH, FO… MAS QUEM SERÁ AGORA?”
Peguei no telemóvel e olhei para o relógio, por amor de Deus, eram 8 horas da manhã, tinha-me deitado á uma hora atrás. Atendi sem ver o nome primeiro.

“ESTOU?”

“ENTÃO MANINHA? COMO VÃO AS COISAS?”

“DAVID LUIZ MOREIRA MARINHO, SÃO 8 DA MANHÃ, ACABEI DE ME DEITAR! AINDA QUERES SABER COMO VÃO AS COISAS?”

“ME DESCULPA, NÃO QUERIA ACORDAR VOCÊ. LIGO PRA VOCÊ MAIS TARDE, BEIJO.”

“NANANANA, FALA AGORA, POR FAVOR, DÊ.”

“CÊ VAI VER O JOGO?”

“VOU. EM CASA, PELO COMPUTADOR.”

“PENSEI QUE VIESSE AO ESTÁDIO.”

“DAVIIII, AINDA Á POUCO REGRESSEI A CASA, E MAIS, NÃO ANDO A NADAR EM DINHEIRO PARA ANDAR SEMPRE A VIAJAR ATÉ LISBOA.”

“DEIXA QUE EU TRATO DISSO.”

“EI, TAMBÉM NÃO ME QUERO PENDURAR EM TI.”

“AHAH, TARDE DEMAIS, JÁ TÔ A CAMINHO.”

“MAS NEM SABES O CAMINHO.”

“EU ME DESENRASCO, TÉ JÁ, BEIJÃO.”

“BEIJINHOS.”

Este David é demais, liguei para o meu pai para que ele me fosse buscar a casa da minha prima. Despedi-me dela e fui até casa, precisava de um valente banho porque, MEU DEUS, o meu cabelo tresandava, devido aos fumos que se soltavam na discoteca. Depois de meia hora debaixo de água corrente e várias camadas de champô, lá consegui tirar o maldito cheiro. Fui até ao quarto e peguei num saco onde pus uma roupa para o dia seguinte, já sabia que não vinha a casa. Com a bagagem pronta, tratei de me arranjar. Optei por algo simples, uns jeans, uma camisola fresca, por causa do calor que se fazia sentir, e mais uma vez, calcei sapatilhas. Pus o relógio que o David me tinha dado, no pulso esquerdo e entretanto recebi uma mensagem dele a dizer que estava a chegar, por isso acedi ao pedido da minha mãe e fui almoçar. Quando ele chegou, as minhas irmãs correram a abrir a porta e tanto foi o seu espanto que vieram ter comigo gritando “OH MEU DEUS, É O DAVID LUIZ!”. Ri-me, não estava nada á espera disto, mas era uma surpresa para elas, visto que só os meus pais, a minha prima e a minha tia sabiam do que se tinha passado em Lisboa, menos a parte do André. Sobre ele só a minha melhor, o David e os restantes que me acompanharam durante as minhas férias é que sabiam. Findas as apresentações, despedi-me dos meus pais e pusemo-nos a caminho.

“MANINHA, TENHO UMA COISA PRA DIZER PRA VOCÊ.”

“DIZ, DÊ.”

“ É SOBRE O ANDRÉ.”

“ESQUECE, NÃO QUERO SABER.”

“FALO NA MESMA.”

“FAZ O QUE QUISERES.”

“ELE ACABOU COM A MARIANA.”

“ELE O QUÊ? QUANDO?”

“E AÍ, AGORA JÁ QUER SABER?”

“Ó, ESQUECE.”

“NO DIA EM QUE CÊ REGRESSOU NA SUA TERRA.”

“E?”

“E QUE ELE AINDA AMA VOCÊ!”

“SE ELE GOSTASSE, NÃO TINHA FEITO O QUE FEZ.”

“ELE FEZ O QUE FEZ PORQUE TAVA CONFUSO.”

“ISSO NÃO É RAZÃO, EU TAMBÉM ESTAVA CONFUSA E NÃO FOI POR ISSO QUE VOLTEI A CORRER PARA O MEU EX-NAMORADO.”

“MESMO ASSIM!”

“MESMO ASSIM NADA, DAVID! VAIS DEFENDÊ-LO AGORA, É? CASO NÃO TE LEMBRES, ERA EU QUEM TU OUVIAS A CHORAR, SEGUNDO POR SEGUNDO, MINUTO POR MINUTO, HORA POR HORA DEVIDO ÁS SAUDADES QUE TINHA DELE ENQUANTO ELE ANDAVA A COMER A OUTRA!"

“CÊ TEM RAZÃO, ME DESCULPA.”

“ESTÁS DESCULPADO!”

Tinha sido dura com o David, mas teve de ser. Pouco ou nada me importava que o André tivesse acabado com a outra…
Ok, a quem estava a tentar mentir? A mim, se calhar, mas só sei que não resultava. Tinha que admitir que parte de mim tinha ficado feliz quando o David me disse aquilo, mas depois também me lembrei de que ele ainda não me tinha ligado desde aí. Senti-me usada e tinha-o sido mais uma vez. “Á primeira caem todos, á segunda só cai quem quer.”. Eu devia de andar a pedi-las, de certeza. As lágrimas comeram a correr pela minha cara, o que fez o David segurar as minhas mãos com força, numa tentativa de me sossegar. A sua face transmitia uma expressão de arrependimento, como que se sentisse culpado de ter trazido aquele assunto á baila.

“ME PERDOA PRINCESA. NÃO QUERIA DEIXAR VOCÊ ASSIM.”

“EI, NÃO TENS CULPA, DÊ.”

“TENHO SIM, DEVIA TER FECHADO A MATRACA.”

“MAS OLHA, FOI MELHOR ASSIM. SE TIVESSE SABIDO MAIS TARDE E SOZINHA, SERIA PIOR, PORQUE NÃO TE TERIA A TI A MEU LADO.”

“POIS. E MAIS UMA VEZ, CÊ TEM RAZÃO.”

“TADITO DE TI SE NÃO TIVESSE, ESTAVAS PERDIDO.”

“EI, NÃO ZOA DE MIM NÃO!”

“EU NÃO ESTOU A ZOAR DE CÊ, TONTINHO.”

“TÁ SIM, MAS PRONTO.”

“NÃO ESTOU NADA, Ó.”

Prosseguimos a viagem. Quando chegamos a Lisboa já passavam das 17 horas, por isso fomos até ao Colombo onde estavam várias pessoas de quem tinha enormes saudades: a minha melhor amiga, a D.Rê, o Rodrigo, a Sara e o Rúben. A ladear a Cláudia estava o Matic. Ou muito me enganava ou ia dar uma coisa entre eles dois. Corri para eles, queria matar aquele sentimento que me apertava o coração e os pulmões contra as costelas. Depois de um abraço muito forte da Cláudia, virei-me para todos os outros.

“ORA BEM, ISTO É TUDO MUITO LINDO E TINHAMOS TODOS MUITAS SAUDADES DAÍ DA GORDA MAS EU, O BRASUCA DO RODRIGO E ALI O GRANDALHÃO TEMOS DE IR ATÉ AO ESTÁDIO PORQUE TRABALHAMOS HOJE, NÉ? BEIJINHOS.”

“É DESAMPARA-ME A LOJA ANTES QUE TE DIGA QUEM É GORDO AQUI, RÚBEN FILIPE!”

“O COSTUME, SÓ GARGANTA!”

“AI MEU CAMELO…”

Ia desatar a correr atrás dele quando o David me agarrou. Fomos jantar e depois fomos até ao estádio onde nos dirigimos aos camarotes. Estava a ficar mal habituada. Estava a instalar-me quando ouvi uma voz conhecida.


“TU AQUI?”

“QUÊ, AGORA NÃO POSSO ACEITAR UM CONVITE DO MEU MELHOR AMIGO E VIR VER O MEU CLUBE DO CORAÇÃO JOGAR? MAIS, NÃO DEVIAS DE ESTAR LÁ EM BAIXO, ANDRÉ?”

“É, VOU-ME EMBORA.”

“ADEUS E NÃO VOLTES!”

Só eu sei o quanto aquelas palavras me queimaram a garganta. O David envolveu-me num abraço e deixei-me ficar nos seus braços.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Capítulo 10: Encontros... Nada Agradáveis

A Cláudia abraçou-me muito ternamente e, imitando um sotaque brasileiro, relembrou-me as palavras que o David me tinha proferido dias antes. Um sorriso apareceu na minha face, algo que pareceu provocar uma grande sensação de satisfação na minha melhor amiga.

“BEM, VAMOS COMEÇAR A PÔR AS MESAS E DEPOIS E DEPOIS PODEM IR-SE VESTIR.”

“OK TIA.”

A Cláudia pegou em algumas coisas e dirigiu-se ao jardim, e eu, na minha tentativa de imitar os seus gestos, fui travada pela minha tia.

“ESTÁ TUDO BEM ZEZA?”

“SIM TIA, SÃO SÓ SAUDADES, NÃO TE PREOCUPES.”

“SAUDADES DE QUEM, SE TENS AQUI A CLÁUDIA?”

“SAUDADES DE UM GRUPO DE PESSOAS MARAVILHOSAS QUE LÁ DEIXEI.”

“ESTÁ BEM, MAS NÃO TE QUERO TRISTINHA. ESTÁS MAIS JEITOSINHA E TUDO, POR ISSO SORRI QUE A SORRIR É QUE ÉS LINDA.”

“OBRIGADA TIA.”

“NÃO TENS QUE AGRADECER.”

Agarrei nas coisas que estavam em cima do balcão e dirigi-me ao jardim, onde dei então por terminados os preparativos para a festa de aniversário do meu primo. Puxei a Cláudia por um braço e subimos até ao quarto, onde nos começamos a vestir. Enquanto a minha melhor optou pelos habituais jeans, uma camisa e uma t-shirt, eu decidi vestir-me, jogando a favor do elogio que a minha tia me tinha feito momentos antes. Vesti uns calções brancos e uma camisola da cor que me ficava melhor, vermelho, algo que fazia sobressair o meu tom de pele, bastante moreno. Calcei as minhas Vans pretas e no pulso coloquei um relógio em tons de prata. Prendi o cabelo em trança, maquilhei-me, á minha maneira, e depois descemos para a cozinha. Entretanto os meus pais chegaram, ai as saudades. Desatei a correr, se havia alguém de quem tinha mesmo muitas saudades, era deles os dois, mas mau era, né? Depois de um abraço todo amoroso a cada um, segui-os até ao jardim. Tinha muito para lhes contar, mas para isso tinha o auxílio das fotografias tiradas pela Cláudia durante a minha estadia. Estava fora de casa há mais de duas semanas, mas acho que me fez bem, pelo menos serviu para descansar um pouco… ou não. Como os convidados estavam a chegar, tratei de ir ajudar a minha tia. Durante todo o serão, respondi milhentas vezes às mesmas perguntas, agradeci a elogios, contei momentos das férias, e entre isso derramei algumas lágrimas de saudade, algo muito normal. Agradeci milhões de vezes quando a música começou a soar. Aqui estava uma boa maneira de descontrair, dançar, aproveitar a noite com os meus mais próximos, e andava mesmo a precisar disto. Além do mais, as férias estavam quase a terminar por isso tinha mesmo que aproveitar. Depois de cantarmos os parabéns ao meu primo, resolvi anunciar a minha boa-nova.

“PESSOAL, TENHO ALGO PARA VOS CONTAR.”

“CHUTA!”

“BEM, DURANTE AS MINHAS FÉRIAS NA CAPITAL, RECEBI UMA CHAMADA MUITO IMPORTANTE, DE UM CERTO DOUTOR VÍTOR, DUMA CERTA ASSOCIAÇÃO SOL NASCENTE, AHAH, SABEM QUEM SÃO, CERTO?”

“SIM, SABEMOS, MAS O QUE VEM DAÍ?”

“FUI CONVIDADE PARA DIRIGIR A EQUIPA DE JÚNIORES DE DANÇAS URBANAS DA ASSOCIAÇÃO!”

Entre inúmeros “PARABÉNS”, soou um som de uma garrafa de Champanhe a ser aberta. Se havia algo que a minha família me gostava de ver fazer era dançar, algo que me fazia ficar orgulhosa de mim mesma. Isto só me deu ainda mais vontade de aproveitar a noite, por isso pus-me a dançar. Tornou-se tarde e como o dia tinha sido cansativo, eu e a Cláudia rumamos a minha casa com os meus pais. Estava morta de sono, por isso adormeci mal caí na cama. Acordei com a voz da minha mãe, reparei que era cedo ao olhar para o relógio que estava na mesinha imediatamente ao lado da minha cama. Quando a minha mãe me chama assim cedo, das duas uma: ou vão sair e tenho que ficar a tomar conta das minhas irmãs, ou vamos dar uma grande volta. Levantei-me e fui até á cozinha, “QUE CHEIRO A FRITOS, PÁ!”. Aí estava a resposta. Fui acordar a Cláudia e entretanto comecei a vestir-me. Optei por algo prático. Depois de vestida, fui preparar o pequeno-almoço e enquanto esperava pela Cláudia, ajudei a minha mãe a terminar o farnel para aquele dia. Depois de tudo pronto, saímos de casa e durante horas, viajamos por bastantes cidades. Chegámos a casa já tarde, mas não tinha sono, talvez por saber que os dias da Cláudia ali estavam a chegar ao fim. Passamos a noite na conversa, a relembrar os momentos passados em Lisboa, as palermices do Rúben e do David e do restante plantel. Acabamos por adormecer já de manhã, entre lágrimas de saudade. Quando acordamos, depois de um bom pequeno-almoço, fomos até á praia da zona, acção repetida durante a estadia da minha Melhor. Numa manhã acordei atribulada, algo que se deveu ao facto de ser o dia da partida da Cláudia. Chorei todo um caminho de minha casa á estação de comboios de onde ela iria partir.

“MAS FOFINHA, NÃO QUERO QUE CHORES. SEMPRE QUE FOR PRECISO ALGO, ESTOU Á DISTÂNCIA DE UMA MENSAGEM OU CHAMADA. 360 KM FAZEM-SE NUM INSTANTE. SÓ MAIS UMA COISA: AGORA VAIS COMEÇAR UMA CARREIRA, A PAR DAS AULAS E VAIS PRECISAR DE TRABALHAR MUITO. MAS APESAR DO QUE QUER QUE ACONTEÇA, TENHO ORGULHO EM TI, LINDA.”

“OBRIGADA CLÁUDIA. FAÇO DAS TUAS AS MINHAS PALAVRAS. AMO-TE.”

“TAMBÉM TE AMO, ZUCA.”

“AI SCOTTISH, PORTA-TE BEM.”

“TU TAMBÉM.”

Abraçou-me a mim e á minha mãe e depois disso entrou para o comboio que entretanto tinha chegado. Depois de este arrancar, dirigimo-nos ao carro para virmos embora. Engraçado, era quase como que deixar uma irmã de sangue partir, mas acho que era quase como se essa irmã fosse partir para longe e nunca mais voltasse. Sim, era exatamente assim que eu via a Cláudia: como uma irmã mais velha. Senti-me angustiada. Peguei no telemóvel e liguei para o David.

“OLÁ DÊ.”

“OLÁ MEU ANJO. TÁ TUDO BEM?”

“NÃO DÊ, SAUDADES.”

“OH MINHA LINDA, MAIS NÃO FALA ISSO, SÓ TÁ TORNANDO TUDO MUITO MAIS DIFICIU. EU TAMBÉM TENHO SAUDADES SUAS, MAS TENHO QUE DAR CONTA DELAS. NÃO SE PREOCUPA NÃO, CEDINHO VAMOS TAR JUNTOS, MANINHA.”

“MESMO?”

“SIIM. DE QUALQUER MANEIRA, CÊ SABE QUE AMO CÊ, CERTO?”

“SE TU DIZES QUE SIM, É PORQUE SIM, AHAH. OLHA, MANDA BEIJINHOS Á SARA E Á D.RÊ, JÁ TENHO TANTAS SAUDADES DELAS TAMBÉM.”

“ELAS TÃO MANDADO PRA CÊ TAMBÉM. E A CLÁUDIA, TÁ TUDO BEM COM ELA?”

“SIM, ACABOU DE PARTIR DAQUI.”

“ENTÃO É POR ISSO QUE CÊ ME LIGOU.”

“HUMHUM. E O RÚBEN?”

“CHATO COMO SEMPRE, O BABACA.”

“NÃO O LARGAS NEM POR NADA, OLHA QUE ENGRAÇADO.”

“SE CALA, Ó.”

“É TAMBÉM TE AMO, MANO VELHO.”

“E A CÊ, BÉBÉ.”

“AHAHAH, QUE PIADA, VÊS? OLHA, TENHO QUE DESLIGAR. AMO-TE TONTINHO.”

“E EU A CÊ. BEIJÃO!”

Parece que adivinho, ele conseguiu deixar-me de bom humor. Depois de um bom almoço feito pela minha mãe em casa, dediquei-me a preparar as coisas para as aulas. Resolvi adiantar-me, visto que nos dias seguintes ia andar ocupada a analisar as candidatas á equipa que iria ‘treinar’, “OLÁ TRABALHO, ODEIO-TE.”. Dias cansativos, entre folhas, cafés, refeições rápidas e poucas horas de sono foram passando. Num sábado á tarde, tinha eu acabado de aterrar no meio de todos aqueles papeis e o meu telemóvel, “RAIO DE SENTIDO DE OPORTUNIDADE, PÁ”, aonde é que já tinha ouvido isto?

“ESPERO QUE TENHAS UMA BOA JUSTIFICAÇÃO.”

“OLÁ GAJA BOA. MAL DISPOSTA?”

“NÃO, CANSADA. ENTÃO, QUE QUERES, PRIMINHA?”

“QUERO QUE TE PREPARES PORQUE VAIS SAIR COMIGO.”

“MAS É JANTAR E NOITE OU SÓ NOITE?”

“JANTAR E NOITE.”

“OK, CONTA COMIGO.”

“ATÉ LOGO, KISS.”

Fui até ao quarto e abri as portas do meu guarda-fatos. Tirei de lá uns calções de ganga de cinta subida e uma camisola vermelha, de tecido meio transparente. Nestas alturas opto sempre pelo conforto por isso calcei umas sapatilhas. Peguei no casaco e na mala e saí de casa, estava mesmo a precisar de sair. Depois de um bom jantar com a minha prima, o namorado dela e um amigo comum, fomos até uma discoteca próxima. Comecei a ambientar-me ao clima e de e a aproveitar a noite, já não fazia saídas destas por estes lados á eternidades.

“OLÁ ZEZA…”


Ai não, tanta gente para me aparecer á frente, mas tinhas que ser mesmo tu, e logo agora?